YouTube

Artigos Recentes

Por que temos dois olhos, dois ouvidos e...dois buracos no nariz?

                                                     


           Mais do que uma questão de simples simetria corporal, a duplicata dessas três partes do corpo desempenham um importante papel  no processo de interpretação sensorial, e isto estende-se a quase todos os outros mamíferos.

            Começando pelos olhos, a noção precisa de profundidade é dada pelas diferenças mínimas de entrada de luz. Você triangula a perspectiva com mais vividez aproveitando-se que os olhos assumem posições distintas no seu rosto. Com isso, a luz de uma parte da paisagem que chega a um dos olhos possui uma base de horizonte diferente daquela que chega ao outro. O cérebro processa as duas imagens formadas, sobrepõe ambas e calcula as distâncias aproximadas dos elementos em cena. É bom lembrar que um olho apenas consegue ter uma normal noção de profundidade, mas não de forma tão vívida quanto os dois em conjunto. É com este mecanismo também que funciona as sessões 3D nos cinemas. Através de truques de imagem, e com a ajuda de um óculos especial, um olho capta um certo tipo de imagem e o outro outra bem diferente. A diferença de recebimento de imagens, neste caso, é tão forte que os objetos parecem estar saltando da tela ou o cenário na mesma passa a possuir uma profundidade gigantesca.

Os óculos 3D usam o mesmo princípio de diferenciação visual entre a visão dos seus dois olhos

- Continua após o anúncio -



               No caso da existência de dois ouvidos, a audição passa a ser algo mais do que um receptor de sons. Em uma lógica parecida com a visão, estando cada ouvido posicionado em diferentes posições do rosto, os sons vindo de uma específica direção chegam em tempos diferentes em cada um deles, fornecendo ao cérebro informação suficiente para ele identificar de onde está vindo o som com extrema eficiência. Mas se o som vem de uma posição simétrica aos dois ouvidos, não existe diferença de tempo, mas o tom do som ajuda bastante a distinguir sua fonte. Em uma última situação bastante evidente do papel dos dois ouvidos na localização de fontes sonoras, se as ondas de som são limitadas em um comprimento de onda de 30 centímetros ou menos, a cabeça funciona como uma barreira. Ou seja, se o som possui um comprimento de onda muito pequeno (agudo), e vem da direita, ele encontra dificuldade em atravessar a sua face para chegar ao ouvido esquerdo, fazendo com que fique claro a direção sonora para o cérebro. Mas se o som for grave, com ondas maiores, estas chegarão no dois ouvidos sem dificuldade, sobrando o tom e o tempo minimamente diferenciado para o funcionamento do ´radar´. Os animais possuem a mesma funcionalidade para seus ouvidos, mas a maioria possui uma vantagem extra: podem mover suas olheiras, deixando o radar ainda mais eficiente!

Os animais conseguem deixar seu radar sonoro ainda mais aguçado, já que conseguem mover suas orelhas, permitindo um foco maior na direção visada


Não estão aí somente para enfeite
                E agora vem o último, e mais interessante: a razão para termos dois narizes. Para começar, é provável que o mecanismo é parecido com os dois casos anteriores, mas o objetivo fica no campo quase exclusivo do aroma. Quando o ar passa pelos dois canais nasais, o mesmo não possui a mesma velocidade de arraste em cada um deles. E isso pode fazer um grande diferença no processo de sentir cheiros. Segundo estudos na área, algumas substâncias, para serem detectadas pelo nariz, precisam passar bem devagar pelas células  olfativas, enquanto outras precisam passar depressa. Se você fizer um teste de tampar cada um dos lados do nariz e puxar o ar, perceberá que um deles puxa fácil e o outro mais difícil. E o mais interessante é que durante o decorrer do dia, os ´buracos´ trocam de trabalho, com um agora puxando mais do que antes e o oposto ocorre para o outro, em um revezamento para ´descanso´ (1). Se os dois buracos se fundissem em uma única via, não haveria como controlar as velocidades de passagem do ar a todo instante, podendo fazer com que muitos cheiros passassem quase despercebidos. Bem, esse é um mecanismo de diferenciação de aromas não totalmente comprovado em sua eficácia, mas é bem aceito dentro da comunidade científica, especialmente porque explica o porquê do constante bloqueio do ar em um dos buracos do nariz durante o dia, em termos evolutivos.

- Continua após o anúncio -



            E, para finalizar, temos um curioso achado descrito em uma pesquisa publicada na Science, em 2006 (Ref.8). No estudo, foi mostrado que ratos conseguiam saber com boa precisão a direção da fonte de cheiros, devido ao fato dos mesmos estarem chegando em um tempo diferente em cada um dos buracos do nariz. Ou seja, um cheiro vindo da direita chega mais rapidamente no buraco da direita, criando uma sensibilização olfativa diferenciada entre os dois lados, enviando uma mensagem ao cérebro também diferenciada. Os pesquisadores mostraram que as diferenças de tempo de chegada dos odores conseguiam ser percebidas em intervalos tão curtos quanto 50 milissegundos! É ainda investigado, mas isso pode ser algo também pronunciável em outros mamíferos, inclusive em nós,  e mostra um mecanismo de percepção espacial parecido com o que ocorre na visão e audição.

                  Interessante, não?

(1) Um puxa mais ar mais rápido do que o outro, em revezamento, porque ocorre um inchaço nas estruturas internas do nariz. Esse inchaço afeta ambos os lados em um revezamento ativado a cada 4 horas, em média.

CURIOSIDADE: Por causa da sua anatomia diferenciada, o Louva-a-Deus é o único representante conhecido dentro do reino animal que possui um único órgão auditivo, ou seja, apenas uma entrada de captação sonora. Muitos pesquisadores até o apelidaram de ´Ciclope Auditivo´...:)


REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.healthguidance.org/entry/17381/1/Why-Do-We-Have-Two-Nostrils.html
  2. http://news.stanford.edu/news/1999/november10/smell-1110.html
  3. http://www.nature.com/nature/journal/v402/n6757/full/402035a0.html
  4. http://www.scientificamerican.com/article/two-eyes-two-views/
  5. http://www.berkeley.edu/news/media/releases/2006/12/18_scents.shtml
  6. http://www.scientificamerican.com/article/bring-science-home-two-ears-sound/
  7. http://academicworks.cuny.edu/gc_etds/647/?utm_source=academicworks.cuny.edu%2Fgc_etds%2F647&utm_medium=PDF&utm_campaign=PDFCoverPages
  8. http://science.sciencemag.org/content/311/5761/666