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Malária: o grande inimigo tropical

 

         A luta contra a malária possui décadas de experiência e começou, realmente séria, a partir de pesquisas para ajudar soldados durante a Segunda Guerra Mundial, os quais eram infectados ao milhares. Desde então, diversos medicamentos foram sendo desenvolvidos para o combate dos sintomas mais graves( um dos primeiros, e até hoje utilizado, é o quinino) ou prevenção. Mas o parasita vêm ganhando resistência* à estas drogas, e uma das causas é justamente esta
prevenção excessiva.

O mosquito Anopheles, vetor do protozoário da malária

         A malária é causada pelo protozoário do gênero Plasmodium, onde a espécie falciparum é a mais perigosa. A doença atinge as regiões tropicais do planeta, principalmente as mais úmidas. A infecção inicia-se quando o vetor da doença, o mosquito Anopheles, é infectado com o protozoário, o qual passa por diversos  estágios dentro do seu corpo e amadurecem no sistema disgestivo do mosquito, na forma de gametócitos. Estes gametócitos, então,  migram para a saliva do inseto, onde são chamados de esporozoíto. Quando o mosquito pica uma pessoa sadia, estas formas dirigem-se para as células hepáticas( fígado), onde eles reproduzem-se assexuadamente, dando origem a milhares de merozoítos. Estes últimos, quando em grandes quantidades nas células hepáticas, estouram a mesma, e vão direto para as células vermelhas do organismo. Nestas, conhecidas também como eritrócitos, os merozoítos são multiplicados de forma rápida e contínua através de reprodução assexuada, e, de tempos em tempos( 2 dias em algumas espécies, e 3 dias em outras) eles tornam-se tão numerosos nos eritrócitos, que acabam estourando os mesmos, e ganham a corrente sanguínea novamente. Quando isso acontece ( a cada 2 ou 3 dias), os pacientes sentem um calafrio súbito, seguido de febre, e este é um dos sintomas mais clássicos da malária. Os merozoítos libertos, voltam, em parte, para infectar outras células vermelhas, e a outra parte tornam-se gametócitos, os quais, se sugados por um mosquito enquanto se alimenta do hospedeiro, completam seu ciclo de amadurecimento, para começarem uma nova infecção.
Sintomas comuns da Malária
 
          Os sintomas iniciais desta doença são muito parecidos com os de uma gripe, e se o sistema imunológico não combater a tempo o parasita, ele pode espalhar-se para os rins, pulmões e as células vermelhas( responsáveis pelo transporte de oxigênio no corpo humano) presentes na circulação do cérebro, podendo privá-lo de oxigenação, levando à desmaios e eventuais mortes.

          A ONU estima que em 2010, 219 milhões de pessoas foram infectadas com a malária, e entre 660 mil ( uma média ainda hoje) e 1,2 milhões de pessoas morreram da doença, com muitas crianças africanas nesse meio. Há 30 anos atrás, a malária era uma das maiores causas de mortes em diversos países no sul asiático, até que o remédio Artemisinin chegou em 1994, efetivo e rápido, quase extinguindo a doença, e os números de doentes vêm caindo desde então  nesta região. Na África, existe ainda um grande número de novos casos e falecimentos por conta da má infraestrutura presente em diversos países do continente. Mas, agora, até países em pleno desenvolvimento no sul da Ásia, como Bangadlesh e Índia, estão sob o perigo de contraírem uma nova epidemia devida ao grande uso dos medicamentos anti-malária. Isso porque a seleção natural dos protozoários gera grande resistência aos medicamentos tradicionais, já que os parasitas sobreviventes ao ataque dos fármacos acabam procriando entre si, dando origem a novos descendentes que também são imunes as medicamentos.

Como pode ser visto no mapa, a malária é uma doença exclusiva das áreas tropicais
          E o pior é que os sintomas da malária acabam incapacitando os pacientes, os quais não conseguem trabalhar nem estudar. Assim, a situação dos países africanos, nos quais alguns estudos estimam que concentram mais de 90% dos casos registrados no mundo, só tende a piorar. Menos pessoas estudando, menos pessoas trabalhando, fazendo a economia e o IDH afundarem cada vez mais. A malária, portanto, é uma doença que na África afeta profundamente a economia, o social e a saúde pública das suas nações. E como a miséria é um ambiente perfeito para a disseminação da malária, ela é um mal que alimenta e é alimentado pela pobreza,

           Pesquisadores ao redor do mundo estão desesperados tentando encontrar novas formas
 medicinais, e se não obtiverem sucesso, daqui a alguns anos, esta doença pode se tornar uma das
 maiores assassinas dos países tropicais, e isto inclui o Brasil.  Não existe vacinas contra a malária,
 e a melhor forma de combatê-la, é o impedimento das picadas dos vetores, seja isolando os
 mosquitos ( telas ao redor das camas, por exemplo), uso de repelentes em áreas endêmicas ou exterminando os mesmos. Outro agravante é a negligência nas áreas mais afetadas pela doença. Entre 2000 e 2011, por exemplo, dos 756 novos medicamentos lançados no mercado, apenas 4 visavam a Malária, mesmo ela sendo um dos maiores ceifadores de vida no mundo. Claro, como em países desenvolvidos, onde os investimentos em saúde são altos, a malária não chega, existe um descaso em investir nas pesquisas que buscam vacinas e novos medicamentos para a doença. E considerando que os governos africanos, em sua maioria, não investem um centavo em ciência, por causa da corrupção elevada e miséria absoluta, é a população que paga o maior preço: a vida.

Glóbulo vermelho falciforme ( rosado) e normais ( vermelhos)
*Uma grande curiosidade sobre a doença, é a seleção, durante vários anos, de pessoas resistentes geneticamente à malária, principalmente na África, onde esta enfermidade sempre foi um grande
problema. Muitos grupos começaram a desenvolver condições prejudiciais à saúde que garantem uma resistência maior ao protozoário, e podemos listar a anemia falciforme, talassemia, deficiência em glucose-6-fosfato desidrogenase e a ausência do antígeno de Duffy nos glóbulos vermelho. Na anemia falciforme, por exemplo, as células vermelhas são mal formadas, dando origem à eritrócitos com o formato de foices, os quais possuem pequena eficiência no transporte de oxigênio. Porém, quando o protozoário infecta estas células deformadas, eles ´entortam´a célula ainda mais, forçando o sistema de limpeza do corpo a eliminá-las, impedindo um progresso na multiplicação do parasita. Bem, você ganha vários problemas de saúde com esta ´anemia´, mas você não fica tão mal como aquele seu vizinho que está morrendo da malária. Puro Darwinismo em funcionamento.

ATUALIZAÇÃO ( 13/12): Os Médicos Sem Fronteiras é uma das organizações que mais luta pela causa da malária no mundo, concentrando seus trabalhos na África. Só em 2013, essa organização voluntária tratou mais de 1.871.200 infectados. Mas eles pedem mais atenção do mundo para o problema, denunciando a falta recursos e profissionais de campo para o número gigantesco de enfermos.
Saiba mais sobre os trabalhos da organização no site oficial: http://www.msf.org.br/

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