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Espirros acionados pela luz?



           Imagine que você está em um quarto bem escuro quando, de repente, alguém abre as cortinas das janelas e a claridade do dia lá fora atinge em  cheio o seu rosto. Nesse momento, inesperadamente, você começar a espirrar sucessivas vezes. Porém, você já podia estar esperando por isso sem saber muito bem o porquê. Sim, o que ocorreu não foi uma coincidência, mas um reflexo fisiológico conhecido como ´ACHOO´.

            Não, a palavra no final do parágrafo anterior não representou o efeito sonoro de um espirro, mas, sim, uma síndrome. ACHOO é a sigla em inglês para Autosomal Dominant Compelling Helioopthalmic Outbusrt (sério... alguém aí chame o Mister M para traduzir isso de forma coerente?...:D). Basicamente, os portadores dessa síndrome sentem uma incontrolável vontade de espirrar quando são expostos, visualmente e repentinamente, a uma fonte luminosa, geralmente uma intensa luz solar. Depois da exposição luminosa e dos espirros - os quais, geralmente, totalizam de 2 ou 3 sucessivamente, mas com o número podendo ultrapassar os 40 espirros -, o indivíduo para de espirrar ou sentir vontade de fazê-lo, independente se a luz continua incidindo nos seus olhos. Apesar desse fenômeno parecer algo bem estranho, ele é muito mais comum do que você possa imaginar. É grande as chances de você, leitor, ter essa síndrome, já que os pesquisadores estimam que entre 18 e 35% da população a possuem!

         Também conhecida como PSR (Photic Sneeze Reflex e, na tradução, Reflexo Fótico do Espirro...Ufa! Esse foi mais fácil...:D), essa síndrome é descrita há milênios ao longo da história humana. Apesar de ser sugerido que ela é bem comum no mundo, as pessoas não a percebem muito porque quando espirram ao se deparar com uma forte luminosidade repentina, acabam não dando importância para o fato, já que o estranho reflexo é cessado bem rapidamente. Ou seja, os espirros são considerados frutos de algo aleatório e natural. E como é um fenômeno pouco estudado no meio acadêmico por não ser um quadro de significativa gravidade médica, essa síndrome acaba ficando ainda mais esquecida e pouco entendida. Sabe-se que ela tem origem genética, possuindo um caráter autossômico dominante. Desse modo, se um dos pais é afetado (gene dominante responsável indicado pela seta na figura abaixo), seus filhos, independente do sexo, terão uma chance de 50% de terem a síndrome. 


          Por causa do pouco investimento dos cientistas em cima dessa síndrome, seus mecanismos fisiológicos de ação não foram ainda totalmente elucidados. Há algumas décadas, quando começaram os estudos em cima do interessante fenômeno, várias publicações científicas saíram sobre o assunto, mas, depois de algum tempo a questão foi perdendo importância. Mesmo assim, algumas pesquisas continuam investigando o assunto, como uma publicada em 2010 (Ref.4). Tentando entender como esse fenômeno era processado no cérebro, os pesquisadores responsáveis propuseram que o reflexo pode ser o resultado de uma maior sensibilidade de estímulos no córtex visual desses indivíduos, junto com uma co-ativação de áreas somatossensoriais. A pesquisa foi conduzida com um grupo de voluntários, onde uma parte possuía a síndrome e a outra não, e contou com a ajuda de um electroencefalográfico para medir as respostas neurais dos participantes à luz incidente. Os resultados corroboraram, em parte, com as hipóteses já formuladas para o fenômeno, como a presença de maior excitação no córtex visual, algo que pode interferir com outros ´caminhos´ de resposta no cérebro e levar à sensação de querer espirrar.

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         Bem, de qualquer forma, apesar de ser considerada uma característica genética inofensiva, especialistas alertam para possíveis acidentes que podem ocorrer com as pessoas que portam o ACHOO. Pilotos de avião ou motoristas de carro podem passar por perigosas experiências caso estejam saindo de uma ambiente escuro para outro bem iluminado. No caso dos carros, a situação para melhor exemplificar o alerta é quando o veículo sai de um túnel escuro direto para a claridade do dia, algo que pode disparar violentos espirros e distrair bastante a atenção do motorista, especialmente por ser algo não esperado e repentino. Uma prática que pode minimizar os danos é usar óculos escuros e bonés sempre que possível nessas situações para minimizar o ataque surpresa de fortes fontes luminosas.

Uma luminosidade acertando o motorista depois de um longo túnel escuro pode ser bem perigoso

              E você, acha que possui essa síndrome? Passe a reparar naqueles espirros que surgem do nada e veja se a situação se encaixa com o descrito no artigo acima...:)
         
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
  1. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK109193/?report=reader
  2. http://www.scientificamerican.com/article/why-does-bright-light-cau/
  3. http://www.bbc.com/future/story/20150623-why-looking-at-the-light-makes-us-sneeze
  4. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0009208
  5. http://www.nature.com/eye/journal/v23/n11/abs/eye2009165a.html
  6. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16525923
  7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16007510
  8. https://www.omim.org/entry/100820